Sexo "artístico" CONTARDO CALLIGARIS

Postado por: Davi de Sant Anna  em 14 de agosto de 2008
Na categoria: Crônicas

No cinema, o sexo é um bailado de corpos que se exercitam, com luz e música apropriadas
COM FREQÜÊNCIA (crescente?), o sexo, no cinema, consiste em cenas intermináveis nas quais fragmentos de corpos, enquadrados de maneira que não se sabe mais se são nádegas ou seios, movimentam-se numa luz suave e com uma trilha sonora que é uma espécie de Galvão Bueno da “transa” -só que mais previsível que o apresentador global.leia mais
Talvez se trate de um efeito da censura ou da autocensura: o disfarce “artístico” vale como pretexto para que a gente se autorize a mostrar coisas que, sem isso, pareceriam proibidas.
O fato é que, em geral, esse sexo “artístico” me causa um mal-estar.
De repente, passo a contemplar (no escuro) a ponta de meu sapato, como um adolescente que estivesse na companhia dos pais. Mas não é por pudor infantil: no cinema, uma cena de sexo que seja pornográfica ou simplesmente realista não me causa mal-estar algum, e, quer eu goste ou não, sigo olhando para a tela.
De onde vem, então, minha dificuldade com o sexo “artístico”?
Uma amiga gostava de um homem bonito e “sarado”. Quando se deitaram juntos pela primeira vez, havia um grande espelho ao lado da cama.
No meio das escaramuças, o homem olhava insistentemente para o espelho. Minha amiga pensou que ele devia achar excitante a visão dos dois corpos nos gestos do amor, mas logo ela notou que o homem não parava de flexionar seus tríceps verificando, no espelho, a definição de seus músculos. Minha amiga perdeu o entusiasmo; esperou, educadamente, que a transa acabasse e nunca mais encontrou o homem.
“O que foi?”, perguntei, “você ficou com ciúmes dos olhares apaixonados que ele reservava para seu próprio corpo?”. “Não”, respondeu minha amiga, “só fiquei com a sensação de que a gente estava na academia. E aí perdi o embalo”.
Pois bem, no cinema, as representações “artísticas” do sexo me fazem um efeito parecido: é como se o descontrole do corpo erótico (que, claro, concordo, pode ser obsceno) fosse substituído quer seja por um bailado de corpos higienistas que se exercitam, quer seja por uma câmara lenta de músculos e pele, que parece ambicionar o estatuto de obra de arte abstrata.
Em suma, no estereótipo cinematográfico, o sexo parece mais estético, saudável e pretensamente poético do que extático.
Ora, o sexo não é nada disso, e torná-lo “artístico” não é apenas um jeito de representá-lo, é também um jeito de domesticá-lo, de regrá-lo.
Acaba de ser publicado em português mais um seminário de Michel Foucault, o de 1978-79, “Nascimento da Biopolítica” (Martins Fontes).
Talvez seja a única ocasião em que Foucault analisou diretamente o poder do Estado no mundo contemporâneo. Como sempre, Foucault é genial: ele aponta o ideal do Estado contemporâneo na “frugalidade” (ou seja, no menor governo possível), enquanto o exercício do poder é delegado a mecanismos que triunfam por seu caráter aparentemente natural e incontestável. Exemplo fundamental: o Mercado, que, sem intervenções externas, produziria os preços e os custos “verdadeiros” -só pelo livre jogo dos agentes econômicos. Em outras palavras, no exercício do poder moderno, não é preciso mandar: basta mostrar a “naturalidade” do óbvio.
O seminário termina antes que Foucault consiga tratar propriamente do poder na gestão da vida cotidiana, mas entende-se que ele funciona da mesma forma, graças a reguladores implícitos, que se impõem por sua suposta e “óbvia” naturalidade. Por exemplo, quem negará que a vida saudável, a harmonia e a higiênica limpeza são valores “naturalmente” benéficos?
Então por que seríamos reféns da “feiúra” da concupiscência, quando é possível (como sugerem as cenas artístico-eróticas do cinema) viver orgasmos lindos e simultâneos, quem sabe ritmados pelo coro da “Nona Sinfonia” de Beethoven?
Sem contar que, com luz e música certas, também parece óbvio que o sexo possa espontânea e naturalmente conviver com o amor. Não é?
P.S. A vantagem do teatro sobre o cinema é que, no teatro, a estetização sanitarista do sexo é mais difícil, pela presença física do corpo dos atores e pela falta de enquadramentos parciais. Como contraponto ao sexo “artístico”, freqüente no cinema, quem estiver em São Paulo ou passar por aqui pode assistir a uma peça: “Pornografia Barata”, de Mauricio Peroni de Castro, em cena no Espaço dos Satyros (às 21h nas sextas e sábados até o fim de agosto, depois disso à meia-noite).

Frases de Nelsons Rodrigues

Postado por: Davi de Sant Anna  em 13 de agosto de 2008
Na categoria: Crônicas

As frases polêmicas e cheias de humor de Nelson Rodrigues são publicadas como uma homenagem à passagem de seu aniversário de nascimento (23-08-1912). Elas foram selecionadas e organizadas por Ruy Castro, extraídas do livro “Flor de Obsessão”, Cia. das Letras - São Paulo, 1997, págs. diversas.

- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade.

- Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.

- Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de “ilustre”, de “insigne”, de “formidável”, qualquer borra-botas.

- A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.

- O brasileiro não está preparado para ser “o maior do mundo” em coisa nenhuma. Ser “o maior do mundo” em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

- Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar.

- Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

- O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.

- Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria.

- Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

- O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.

- Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — “Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!”. Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão!

- Em nosso século, o “grande homem” pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta.

- O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.

- Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.

- Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.

- Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

As frases polêmicas e cheias de humor de Nelson Rodrigues são publicadas como uma homenagem à passagem de seu aniversário de nascimento (23-08-1912). Elas foram selecionadas e organizadas por Ruy Castro, extraídas do livro “Flor de Obsessão”, Cia. das Letras - São Paulo, 1997, págs. diversas.