Não mais ser

dezembro 22, 2008 by Camila Meloni  
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Opaco! Sem luzes, apenas as sombras conduzem o caminho de sordidez. Sinto que, enfim, desaprendi a mágica do amar. E como punição severa, meu vácuo interno tornou-se a essência do meu ser, que às vezes, simplesmente não é!

As flores já não têm a cor da esperança, a cor do perdão que está por vir. As flores, hoje, têm a cor do tempo, da mágoa, da chuva que não molhou. Quantas flores hão de se finalizar, esperando a cura da canseira vinda da monotonia de fingir ser.

Descanse em paz, minha euforia cansada, que o tempo já foi seu; que a cura já lhe foi útil; e que a verdade nunca a impediu de ser euforicamente viva. Descanse em paz, minha alma velha que se destina ao destino das coincidências. Que o mundo já foi seu, e hoje já não existe nem você e nem o mundo.

De onde vêm tantas lágrimas, se são tão poucos os olhos que se põem a chorar? Não são minhas as lamentações expostas pelas feridas internas que não se curam. São lamentações da minha alma, por não ter mais um ser que por aqui comanda, que por aqui vive, que por aqui reage.

Não temos mais tempo para dizer que o tempo foi em vão. Não temos mais palavras pra dizer que palavras nem sempre é a melhor solução. Hoje me calo diante da dor que me cerca, consome, e me mata aos poucos. Calo-me diante da fúria acumulada de todo o tempo preso nas garras da monótona função de ser. E que hoje não mais é.

Poeta fingidor e a Janela do Mundo

dezembro 20, 2008 by Davi Sant´anna  
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Não seja um poeta fingidor

Que escreve sem sentir

Momentos sem saber

Não viva numa utopia

Levando a vida a sério de mais

Não se preocupe com a maldade alheia

E nem tente mudar o que esta ao seu redor

Faça isto a si mesmo e o mundo mudará aos seus olhos

Não exija e nem faça promessa

Não seja um poeta fingidor

Um alquimista das palavras,

Um palhaço sem circo,

Num sorriso estampado em  boca banguela

Expondo pra ti a verdadeira janela do Mundo!!

Escrever, Humildade, Técnica - por Clarice Lispector

dezembro 14, 2008 by Redação DOC de Bolso  
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Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
Clarice Lispector
Extraído do livro A Descoberta do Mundo, Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1999.

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