Agenda cultural 2009
janeiro 2, 2009 by Redação DOC de Bolso
Filed under Cultura
2009 começa com uma agenda repleta de opções culturais que vão desde filmes, passando por exposições, Teatro e muita arte! Confira abaixo a agenda cultural que a DOC de Bolso selecionou para o mês de janeiro:
TEATRO
O Quarto
Liderada pelo autor e diretor Roberto Alvim e pela atriz Juliana Galdino, a Cia. Club Noir inaugura sede com a primeira peça do dramaturgo inglês Harold Pinter. Escrito em 1957, o texto mostra uma mulher isolada ao lado do marido em seu quarto. Essa clausura é ameaçada por questões que fogem ao controle dela. Com Juliana Galdino, Gê Viana, Lígia Yamaguchi e Rodrigo Pavon. Direção de Roberto Alvim (60 min).
14 anos.
Onde: Club Noir (Rua Augusta, 331)
Quando: Até 02/09 (Sexta e sábado, às 21h; Domingo, às 20h)
Quanto: R$ 10,00
Informações: (11) 3257-8129
Hamlet
Escrita por William Shakespeare na virada do século 17, a tragédia de Hamlet permanece como a peça mais celebrada em toda a história do teatro mundial. Desta vez, o texto volta a ser encenado com o frescor e o despojamento que marcaram sua estréia, há quatro séculos. A peça se passa no Castelo de Elsinor, na Dinamarca, onde o fantasma do Rei Hamlet aparece para seu filho, o príncipe Hamlet, e exige uma vingança. O espectro diz ter sido envenenado pelo próprio irmão, Claudio, enquanto dormia. Claudio acaba se casando com a Rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, roubando de seu pai a um só tempo a vida, a coroa e a mulher. Paralelamente, Hamlet se apaixona pela jovem Ofelia, filha de Polonio, conselheiro de Claudio e Gertrudes, e irmã mais nova de seu amigo Laertes. Com: Wagner Moura, Tonico Pereira, Caio Junqueira, Carla Ribas, Georgiana Góes, Fabio Lago, Marcelo Flores, Gillray Coutinho, Claudio Mendes, Felipe Koury. Direção de Aderbal Freire Filho
Onde: FAAP São Paulo (R. Alagoas,903)
Quando: Até 02/2009 (Sexta e Sábado, 20h; Domingo, 18h)
Quanto: R$ 80
Informações: (11) 3662-7232
CINEMA
Lição de Amor é opção cultural no dia 9
Lição de amor. Direção de Eduardo Scorel (Brasil, 1975). Na São Paulo dos anos 1920, governanta alemã é contratada para dar aulas particulares ao filho adolescente de empresário, e também para dar-lhe lições de amor. Baseado em Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade.
Sexta-feira, 9
Mostra em homenagem ao aniversário de São Paulo
Durante o mês de janeiro, a videoteca do Memorial da América Latina promove mostra de filmes em comemoração aos 454 anos da metrópole, onde São Paulo aparece como cenário e tema.
Exibições da semana:
O grande momento. Direção de Roberto Santos (Brasil, 1958). No dia de seu casamento, filho de uma família de classe média baixa enfrenta dificuldades para obter o dinheiro necessário aos últimos preparativos. Rodado nas ruas do bairro paulistano do Brás.
Terça-feira, 6
São Paulo sociedade anônima. Direção de Luís Sérgio Person (Brasil, 1965). Homem vive conflito entre seus valores e interesses numa São Paulo no auge da euforia desenvolvimentista.
Quarta-feira, 7
O corintiano. Direção de Milton Amaral (Brasil, 1966). Torcedor do Corinthians entra em conflito com os filhos e os vizinhos por causa do seu fanatismo pelo time. Filmado na Vila Maria Zélia. Com Mazzaropi.
Quinta-feira, 8
Memorial da América Latina – Videoteca
Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Metrô Barra Funda – São Paulo
Telefone: (11) 3823-4600
Terça a sexta-feira, às 12 e 15 horas, e sábado, 12h30
Entrada franca
EXPOSIÇÃO
Japão – Mundos Flutuantes
Em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil, o Instituto Moreira Salles e o SESI-SP apresentam ao público, de 25 de novembro a 1º de março, a exposição Japão - Mundos flutuantes. A mostra será realizada na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo, e reúne três diferentes expressões da cultura e da arte japonesa e suas influências em terras brasileiras.
Onde: Galeria de Arte do SESI (Av. Paulista, 1313)
Quando: Até 01/03/2009 (Segunda, das 11h às 20h; Terça a Sábado, das 10h às 20h; Domingo, das 10h às 19h)
Quanto: Grátis
Informações: (11) 3146-7405
A Bahia de Jorge Amado no acervo do Instituto Moreira Salles
Fotografias de Marc Ferrez, Benjamin R. Mullock, Marcel Gautherot e Edu Simões, entre outros, que documentam a paisagem natural e urbana da Bahia, bem como o universo das personagens do escritor baiano.
Onde: Instituto Moreira Salles (Rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis)
Quando: De 23/10 a 18/01 (Terça a Sexta, 13h às 19h; Sábado e Domingo, 13h às 18h)
Quanto: Grátis
Informações: (11) 3825-2560
Abundante cidade – Dessemelhante Bahia
Reúne 100 imagens, em preto-e-branco, do fotógrafo baiano Voltaire Fraga. As fotos selecionadas fazem registro histórico da cidade de Salvador entre as décadas de 1930 e 1960. Fraga retratou a arquitetura, os moradores e a religiosidade baiana. A curadoria é de Diógenes Moura.
Até o dia 4
Cristina Iglesias
São 22 obras (instalações, maquetes e gravuras) da artista plástica espanhola. Em destaque, as instalações Corredor suspenso I e III, de 2006, compostas por dezenas de placas de ferro, presas ao teto por cabos de aço, que formam corredores que o público pode percorrer.
Até o dia 4
Intimidade de Julio Landmann
Reúne cerca de 30 imagens coloridas (foto acima) que retratam a visão do fotógrafo sobre a natureza. A curadoria é de Diógenes Moura.
Até o dia 4
Leopoldo Raimo: um percurso artístico
Pinturas, gravuras e desenhos do artista Leopoldo Raimo registram sua participação em períodos específicos da arte brasileira, especialmente nas décadas de 1950 a 1970. São cerca de 80 obras, em destaque as séries Estandarte, Amuleto, Talismã, Bandeirolas, Festival e Junina, que o aproximam do universo popular. A curadoria é de Ana Paula Nascimento.
Até o dia 7
Pinacoteca do Estado
Praça da Luz, 2 – Luz – São Paulo
Telefone: (11) 3324-1000
De terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas
Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada)
Entrada franca aos sábados
Menos vinte e um
Pinturas, fotografias, instalações, videoinstalações e shows mostram os trabalhos dos formandos do curso de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Paço das Artes
Avenida da Universidade, 1 – Cidade Universitária – São Paulo
Telefone: (11) 3814-4832
De terça a sexta-feira, das 11h30 às 19 horas; sábados, domingos e dia 31, das 12h30 às 17h30. Dia 1º, fechado
Até o dia 4
Entrada franca
Pessoas modernas
São 59 pinturas, esculturas, desenhos e gravuras de Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro, Oscar Pereira da Silva, Brecheret, Cícero Dias, Portinari, Oswald de Andrade e outros. Em destaque, esculturas em bronze do italiano Galileu Emendabili. A curadoria é de Kátia Canton, professora do Museu de Arte Contemporânea da USP.
Palácio dos Bandeirantes
Avenida Morumbi, 4.500 – Morumbi – São Paulo
Telefone: (11) 2193-8282
Terça a sexta-feira, das 10 às 17 horas. Sábados, domingos e feriados, das 11 às 16 horas. Obs. Quarta-feira, 31, a segunda-feira, 5, fechado
Entrada franca
Até o dia 11
I/Legítimo: Dentro e fora do circuito
Realizada em parceria com o Paço das Artes, a mostra reúne obras de artistas brasileiros e estrangeiros em diferentes técnicas, como grafite, animação, desenho, fotografia, vídeo, arte digital, performance, instalação, música, escultura e pintura. Curadoria: Fernando Oliva e Priscila Arantes.
Coletivo
Instalação de Cássio Vasconcellos mostra mosaico fotográfico de grandes proporções composto por imagens aéreas de 50 mil carros, caminhões, ônibus, ambulâncias e viaturas policiais, dispostos lado a lado.
Rebobine, por favor
Projeto criado pelo cineasta francês Michel Gondry, vencedor do Oscar pelo roteiro do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, exibe 13 cenários interativos no qual os personagens recriam obras como RoboCop, King Kong e Conduzindo Miss Daisy.
Museu da Imagem e do Som – MIS
Avenida Europa, 158 – Jardim Europa – São Paulo
Telefone: (11) 2117-4777
Terça a sexta-feira, das 12 às 19 horas; sábados e domingos, das 13 às 18 horas
Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada). Grátis para maiores de 65 anos
Entrada franca aos domingos
Até o dia 11
Imigrantes letos
Coleção de fotos e objetos que mostram a trajetória de vida dos imigrantes letões no Brasil (foto acima). Exposição celebra os 90 anos da proclamação da República da Letônia, localizada no Leste Europeu.
Até o dia 11
A longa jornada: Os russos através do mundo
O objetivo é mostrar a dispersão dos russos para diversos países da Europa e da Ásia, e como esses imigrantes preservam suas tradições no Brasil. Durante o período da exposição haverá apresentações de danças, palestras, workshops de culinária, artesanato e filmes.
Até março
Memorial do Imigrante
Rua Visconde de Parnaíba, 1.316 – Mooca – São Paulo
Telefone: (11) 2692-1866
Terça-feira a domingo e feriados, das 10 às 17 horas
Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada).
Entrada franca no último sábado do mês e para maiores de 60 e menores de 7 anos
O mundo invisível dos micróbios: diversidade e arte
Explora o universo dos microrganismos, enfatizando sua biodiversidade e função biológica.
Museu de Microbiologia do Instituto Butantan
Avenida Vital Brasil, 1.500 – Butantã – São Paulo
Ingressos: R$ 6 e R$ 2,50 (meia-entrada). Crianças até 7 anos, maiores de 60 anos e portadores de necessidades especiais não pagam.
Até o dia 18
Entre oceanos – 100 anos de aproximação entre Japão e Brasil
Vinte e oito jovens artistas contemporâneos, entre brasileiros, japoneses e nisseis realizam intercâmbio para conviver e trocar experiências. As obras utilizam variados suportes: vídeo, desenho sobre tecido, pintura, instalação, fotografia, bordado, cerâmica, entre outros. Faz parte da exposição a Cronologia Tomie Ohtake, uma linha do tempo, na qual são reproduzidas (por plotagem) as principais obras de Tomie até 2008. A instalação proporciona diálogo entre a artista nipônica e os projetos do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer.
Memorial da América Latina
Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Barra Funda (ao lado do metrô
Telefone: (11) 3823-4600
De terça-feira a domingo, das 9 às 18 horas
Entrada franca
Até o dia 25
Prêmio design Museu da Casa Brasileira
Exposição dos selecionados e dos vencedores da 22a edição do tradicional prêmio. São exibidas 52 peças, além de dez livros. As categorias são mobiliário, utensílios, iluminação, eletroeletrônicos, têxteis, equipamentos de transporte e construção e trabalhos escritos. A seleção foi feita entre 555 inscritos. Foram contemplados com premiações 18 produtos.
Museu da Casa Brasileira
Avenida Faria Lima, 2.705 – Jardim Paulistano – São Paulo
Telefone: (11) 3032-3727
Terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas
Ingresso: R$ 4. Entrada franca aos domingos
Até o dia 18
Caderno do Professor Investigador – COISA
dezembro 24, 2008 by Elaine Gomes
Filed under Crônicas
“É importante salientar que nosso objetivo é auxiliar o professor no processo de introdução dos alunos no universo da arte contemporânea. Acreditamos que o conteúdo apresentado aliado a uma pesquisa mais aprofundada e planejamento de aulas pode constituir o início de um trabalho que revele aos alunos faces da arte contemporânea e os ajude a perceber como ela está presente em seu cotidiano. Mãos à obra”!
Concepção de Renata Bittencourt e Daniela Azevedo Roman, o Caderno do Professor Investigador – Coisa é uma produção do Itaú Cultural. Já são 21 anos possibilitando arte e cultura brasileira, promovendo interação em diversas linguagens artísticas com os mais ecléticos públicos. Tendo como alvo a arte e educação o Caderno do Professor Investigador – Coisa, tem como objetivo despertar o interesse do professor pelas artes e pelos artistas brasileiros. Proporcionando ao professor ações e práticas artísticas para com os seus alunos. Principalmente oferecer conexão com a arte contemporânea brasileira, tendo como aliado a Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, que registra obras de arte, entrevistas, textos, comentários, meios e movimentos artísticos. Importante lembrar que o Caderno do Professor Investigador, é uma série! Nesse primeiro volume intitulado “Coisa” apresenta três artistas significativos que lidam com arte contemporânea: Nelson Leirner, Jac Leirner e Nazareth Pacheco. Com possibilidades de leitura e com a vida do artista, não a vida pessoal, mas a vida do profissional. Como ela é? Como é a criação e o processo em cada trabalho exposto? Como é lidar com os conceitos, com o retorno do público? Constante investigação, assim como deve ser o trabalho do profissional de educação! Eis o nome Caderno do Professor Investigador – conhecimento que nunca se esgota, pelo contrário, sempre há um universo a descobrir!
Caderno do professor investigador: arte contemporânea coisa. – São Paulo: Itaú Cultural, 2008.
Restos do Carnaval - Clarice Lispector
dezembro 14, 2008 by Redação DOC de Bolso
Filed under Diversos
Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morreríamos previamente de vergonha – mas ah! Deus nos ajudaria! Não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo, eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.
Clarice Lispector
Felicidade clandestina. Rio de Janeiro:Rocco, 1998.














