Tempo perdido
setembro 18, 2008 by Camila Meloni
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Eu me sento aqui, bem aqui. Logo aqui, nem tão longo do fim e nem tão perto do começo. Assim, como se deixasse a porta entreaberta só para ouvir os passos no corredor. Ou como se colocasse água no copo até a metade da minha sede, para não matar minha vontade, e para provocá-la um pouco mais. Mas, nada disso me importa. O que realmente tem valor é saber que eu me sento bem aqui.
Aqui eu ouço o rouxinol cantando amarguras projetadas em seu assobio. Ouço os carros que passam, mas não os enxergam, e assim como cego procurando formigas na grama, procuro por onde a exatidão da consciência se escondeu. Aqui eu vejo as palavras entrarem pelo meu ouvido e sair pelo ouvido daquele que senta bem aqui do lado. Sinto o vento chegar, trazendo consigo aprendizados e medos alheios, e levando consigo o meu tão apreciado rouxinol, e as palavras que se perderam no ar, depois de fugir dos ouvidos por onde passou. Pois é bem aqui que eu vejo o tempo passar, e daqui ele se perde, então, ninguém mais encontra o tempo perdido.
O meu segredo é que aqui eu ouço segredos, roubo aprendizados que o vento trás, e me esquivo dos medos. O segredo é que eu deixo o tempo passar, mas caminho junto com ele, para que assim nós possamos nos perder juntos, e mesmo eu estando perdida, eu ainda estarei sentada em algum “aqui”, de qualquer lugar para onde o tempo me levar.
(camila.meloni@docdebolso.com.br)














